segunda-feira, 16 de maio de 2016

A demagogia e o pacifismo em tempos de febres políticas

Nossos silêncios sussurram respostas aos espaços de convivência que frequentamos. Mas é muito difícil distingui-las quando estamos sob a névoa da rotina.
 Ai vem o chato que fala dos assuntos tabus e embaralha tudo. As respostas nas entrelinhas geralmente são:
- Para com isso! Precisamos de paz e união!
- Para com isso! Precisamos trabalhar mais e discutir menos!
- Para com isso! Precisamos respeitar as opiniões dos outros!
Quem percebe o quanto esse discurso aparentemente democrático anestesia a diversidade? Quem percebe o quanto esse discurso "fala muito e diz pouco"? Que esse discurso pacificador tem o potencial de querer mascarar os sintomas das injustiças gritantes em nossa sociedade? Que o nosso permanente desejo de sermos aceitos em um grupo não deveria se transformar em demagogia? (Aqui usada no sentido  de ações orientadas com o objetivo principal de agradar a plateia, podendo fazer uso das maiores incoerências)...
Respeitar as opiniões dos outros não significa deixar de questionar ou criticar os fundamentos delas, ou seja, a origem dos posicionamentos sobre determinados assuntos. Essa possibilidade de confronto exige que façamos um autoexame para tentar detectar as nossas manias de grandeza mais inesperadas. Há que se esperar que, se tudo correr bem, nosso autocontrole esteja em dia. Para isso, algumas doses diárias de humildade são sempre um bom remédio, mas o Ministério da Reflexão informa: subserviência faz mal à saúde.

Em meio aos delírios causados pelas febres políticas corre-se o risco de embaçar a visão sobre um dos fatores que perpetuou a existência de famílias, comunidades e sociedades ativas: a ajuda mútua. Nessa tendência consideraríamos tão mau quem pensa diferente a ponto de perdermos elos básicos de solidariedade. O ódio não é um mal exclusivo de uma ideologia. E expor contrariedades, injustiças e pontos de vista controversos não é necessariamente ódio nem vitimismo. Enquanto ainda estivermos livres para nos associarmos e desassociarmos com quem bem entendermos, o exercício da crítica, do questionamento e até a frustração tornam os motivos de nossas ações mais consistentes. Talvez até mais justos.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Enquanto formos o inferno uns dos outros


Ele andava em zigue-zague, mas com passos certeiros, decididos por impulso. Passou do meu lado, olhou-me de cima abaixo. Sem interromper minha caminhada, tentei adivinhar, por dois segundos, qual aditivo circulava naquele sangue. Depois olhei para o outro lado e ergui um pouco queixo, sempre em frente. Meu antagonista desviou um pouco os passos para bater diversas vezes nas portas de vidro de uma loja que vendia roupas femininas exclusivas. Fui ao caixa eletrônico do banco mais próximo e ele entrou logo atrás. Ficou no caixa ao lado e por breves momentos brincou euforicamente com as teclas. Demonstrava uma certa simpatia pelo guarda do banco, até sorria para ele. Enquanto eu observava a cena de canto de olho, perdia tempo apertando números aleatórios para redescobrir saldos que já conhecia. Dois minutos depois, ele saiu do banco e eu saquei o dinheiro.
Atravessei a rua e fui esperar o ônibus. Várias pessoas já estavam na parada. Alguns minutos depois o mesmo jovem ressurge e fica encarando as gurias que estavam por perto. As roupas sujas dele assustam os transeuntes. Ele pergunta em tom alto se o ônibus para determinado bairro já tinha passado. Quebrei, sem querer, o silêncio superficial que se formava naquela tarde ao balançar levemente a cabeça por impulso. Aproxima-se. Ergui mais um pouco o queixo e não o encarei. O rapaz sentou, um pouco distante, ao meu lado, quieto e triste. Vencido pela calma. Neste mundo de conflitos que a gente não escolheu, ser forte não me traz felicidade.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Sobre o orgulho feminino e a necessidade de certos desconfortos

[Editado em 21-01-16]

Eu cresci aprendendo que deveria contestar quando me sentisse injustiçada, que poderia gritar e sair correndo para defender-me de qualquer opressão. Principalmente dos sujeitinhos metidos a machões. Isso me salvou de traumas tenebrosos. Tentei exercitar, sempre que tinha consciência da situação, essa autodefesa. Tais mecanismos se naturalizaram em mim.

Mas tinha presente, com constância, que fui esculpida e esculpi-me frágil: lenta demais, prendada de menos, displicente com a enganosa ordem natural das coisas, desatenta com os ritmos dominantes, insuficientemente cuidadosa com o corpo (e de acordo com os olhos mais amorosos). Compreendi que havia uma espécie de escala invisível e indizível das virtudes femininas e nessa escala eu tinha ficado para trás. O contexto piorava pois, quanto mais eu tentava ganhar “pontos de virtude”, mais mal-estar isso causava-me, sem que eu entendesse profundamente o porquê.

No início lentamente, algumas leituras realizadas e situações na qual me colocava tornaram possível uma mudança de perspectivas: a necessidade de apagar o modelo de comportamento e de corpo que a convivência com os outros desenhou em minha mente. E de construir um novo objetivo que me trouxesse satisfação genuína, usando, sempre que preciso, uma borracha imaginária depois que me sentisse marcada por olhares intrusos.

Esse processo passou pela positivação da minha identidade como uma das identidades possíveis e até, em parte, desejáveis, na diversidade que está por trás do que é ser mulher. E também pela resistência – sempre que possível – ativa a todo tipo de comportamento opressor. Disso decorre uma característica não menos importante dessa transformação: o corte ponderado e contínuo de tudo que reforçasse minhas fragilidades.

Aprendi a amar minhas idiossincrasias e desconfiar de favores cavalheirescos. Com isso, surgiram novas atitudes. Uma das coisas mais bobas que faz com que eu me sinta empoderada é carregar peso, quando é possível (mesmo que, vez ou outra, custe uma dor nos ombros). Procuro bagunçar as aparentes divisões de gênero: assumir minha parte nos gastos financeiros; abrir, para mim mesma, a porta do carro ao sair (como carona); andar sozinha à noite – com as devidas precauções; fazer questão de tentar me defender autonomamente de grosserias, mesmo diante de homens protetores. Procuro dispensar o cavalheirismo tradicional (e ter consciência dos meus privilégios de classe média bem escolarizada, que possibilitam algumas dessas práticas) para que não se tornem hábitos e me acomodem.

Eu sei que minhas descrições podem ser consideradas só uma fagulha da grande e bela chama  que é o feminismo. Das grandes transformações estruturais que ele suscita. O que não sei se seria realmente construtivo para o movimento que eu me considerasse uma representante dele: comparativamente, pouco li de seus cânones, tenho insegurança se minha formação é adequada, se vou deturpá-lo. Talvez fique um pouco feliz além do que deveria quando percebo um homem desconstruindo o próprio machismo (e pelas meninas que tiveram pais presentes e que não lhes sufocam o empoderamento). Tenho que aprofundar minhas práticas de sororidade (apesar de há tempos não ter tolerância a xingamentos machistas ou lesbofóbicos dirigidos a outras, por maiores que tenham sido ou até venham a ser as divergências com algumas mulheres). 

Feminista, pró-feminista ou qualquer outra classificação que possa ser adequada aos meus posicionamentos, parto do pressuposto da profunda gratidão para com aquelas primeiras loucas anônimas que começaram a gritar com os machos sobre seus desejos de estudar, trabalhar, gozar, gargalhar, protagonizar e desobedecer. E foi através desse percurso que a vida de suas descendentes ficou lentamente menos dolorida, mais livre e feliz. E é esse legado que quero perpetuar.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Barricadas

Eu não desabo mais por qualquer cisma
Esculpi em mim finas barricadas
Trançadas de roseiras negras
Por essas tramas só passam
O que o mundo acha torto
Mas tem verdade e riso

Não é no clichê que minha alma se encanta
Eu quero a beleza do olhar que brilha
Depois de ter se partido em pedaços
Eu quero a hesitação mais humana
Sentida num quarto solitário e ansioso
Eu quero a lágrima guardada
E até piada sem graça

As euforias mais insanas
Doces confidências
Os percalços deixam
Tudo mais interessante

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Intervalo no caos

As nossas armaduras se parecem
Duas almas que pesam em desilusões
Mas mesmo depois que a noite cesse
Nossos encontros epiléticos
Garantem sorrisos fortuitos
Baixamos um pouco a guarda
De todo esse caos
E eu tenho um intervalo de paz
Em meio a esse universo fugaz

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Melancolia

O corpo enverga ante à solidão
Fragmentos de sorrisos se esvaem
Enquanto há vida e pulsar
Tão longe!

Não há caminhos de pedra
Que apontem para estradas azuis

Uma vida cheia de traçados pontiagudos
E desenhos insólitos
Cheios de detalhes microscópicos
Que complexificam tudo
Nada é suficientemente
Interessante
Para aplacar
Um paladar
Tão complicado

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Das poesias esquecidas nos lábios de alguém

(Foto: Autor Desconhecido)
As noites daquela estranha mulher não eram mais tecidas por lamúrias infindáveis. A solidão definia com mais clareza o belo do que tem nuances superficiais e ocas. Tolice evitar sentir saudades! Tentar anestesiá-la com futilidades que nada preenchem é digno de escracho.
Quando a gente está em movimento é que as dores diminuem! E a memória se encarrega de colorir só a beleza, se você quiser. A vida é eterna ilusão de simetria.
Bicho arisco, percebeu aos poucos que não havia sido talhada pra esse mundo da sedução. Ainda assim, ela queria a poesia compartilhada entre os corpos. Deitar ao lado de quem se confia qualquer toque, sentindo-se em um intervalo no caos da vida. As pernas entrelaçadas e os sorrisos furtivos. Sem jogos, nem tiranias.
Ela queria reviver as poesias esquecidas nos lábios de alguém (que sabiamente disse-lhe haver dado muito pouco), nem que fosse com outro rosto. Novas migalhas, tão deliciosas quanto as primeiras.
Era melhor descrer nos transbordamentos dos toques e abraços. Não queria que seus tesouros parecessem misérias tolas.

(12 de Fevereiro de 2013 e 27 de Maio de 2013)

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Restos

O viajante frui ilusões
E, como pobre poeta que é, em vão diz
Há beleza aqui como há por todo o lugar
Mas eu grito vazios rudes em sonhos
E, por hora, só tenho esperanças trôpegas

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Pequeno exercício de indefinição

Sou um bicho arisco. Arredia e idiossincrática. Dificilmente satisfeita, às vezes obsessivamente analítica. Facilmente rendida a aventuras e sorrisos lindos, nem que seja preciso uma persistência praticamente inoxidável para arrancá-los. Dizem que meu olhar é doce, mas não me preocupo em ser boazinha. Eu desejo mesmo é tentar contribuir para dar algum sentido coerente e bonito à palavra humanidade.

domingo, 21 de outubro de 2012

Um tom de ironia

Era estranho ela não saber se tinha ido longe demais ou dado passos muito curtos. Se devia ter mudado mais ou ido com mais calma. A vertigem de uma vida sem nortes, como uma bússola louca que nunca para. Árida ironia que a poeira da estrada escondia nas entrelinhas.
Era madrugada e ela estava em um hotel de uma cidade desconhecida. O dinheiro acabando. Longe de tudo e de todos. Ou será que não? Alguns dos pequenos mistérios que cercavam sua vida poderiam fazer com que tropeçasse em coisas familiares sem ao menos notar, ou talvez notar tarde demais.
Um vazio tomou conta dela ao olhar a estrada iluminada pelas luzes da madrugada. Uma estranha sensação que tornava os lamentos inúteis e os motivos pra ser feliz mais fáceis.


domingo, 30 de setembro de 2012

Latências

A rotina é uma quimera
Que me engoliu
Num quarto claustrofóbico
De uma cidade asfixiante

E quem fui é um espectro
Conotação ilusória
De sorrisos fortuitos

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Um poema para os desencantos contra os quais ainda teimo

Ando assim meio cativa
Das intropecções profundas
Sem querer o mundo passa ao largo
O desencanto é meu clichê
Purgatório particular
Frio e oco

E tento ficar a salvo
De sentimentos complexos
Abraços rasos e fortuitos
Mas sempre foi vã a busca
Para que o sorriso esqueça
Que a vida -  na inércia -
Do sono sem sonhos
É só ilusão

Só que por hora ando leve
Como quem ainda se atreve
A sorrir assim de lado
Mas a alma é líquida
E as dúvidas
São pequenos pedregulhos
Esculpidos por correntezas

Através de caminhos tortos o tempo flui


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Rotas complicadas


Eu nem sempre vou 
Pelos caminhos que quero
Aqueles que fazem
O peito arder

Deixo o instante falar
Mas ele tem a consistência 
De uma bolha-de-sabão
Translúcida e sem direção

Incontestavelmente
Eu prefiro as rotas complicadas
Labirintos que escondem 
Sorrisos alucinógenos
E por breves instantes que se reiteram
Parece, de novo e de novo
Que só a mais terna loucura faz sentido

domingo, 15 de julho de 2012

Labirinto

Eu não estaria assim tão errada
Se estivesse absurdamente apaixonada
Mas nesse percurso em corda bamba
É preciso estrangular os instintos
Porque, depois, como sair do labirinto?

domingo, 8 de julho de 2012

Deméter

Eu tenho um mundinho cor-de-rosa pra te oferecer
Na ponta da minha língua
Um mundo de falas insossas e geladas
Paisagens pálidas
Conto de fadas bizarro e oco

Como se nunca tivesse provado da sombria romã
Explosão de cores
Com a qual tanto me deliciei
Insanamente feliz com minha insuficiência
Eu escolhi ser dúbia e oblíqua
Um jogo de sombras
Para escapar
Da tua proteção asfixiante
Gosto de medo
Inferno eterno
Deixas o mundo tão feio

Desejo brincar com o perigo
E eu só quero abrigo
Se for sem perguntas
Inventa-te contente para mim, sim?




domingo, 17 de junho de 2012

Das poesias por hora impossíveis

Na solidão noturna ela se permitia pensar no quanto achava cruel o mundo da sedução. Não queria muito. Nenhum tipo de salvação nos braços de alguém. Mas às vezes ela se perguntava se tudo não passava de um jogo de poder. E isso sempre a assustou. Mesmo que tivesse armas para ganhar (e não eram muitas), sabia que não iria querer usá-las, por medo de acabar gostando de pequenas tiranias. 
Ela queria poesia sem poder. A poesia das pernas entrelaçadas por alguns momentos. Dos cheiros e dos sons. Dos belos acordes descobertos sem querer. Das coisas simples. De se inventar feliz, para poder criar uma nova pessoa dos cacos do passado. E se fosse insanidade da parte dela? Pretensão? Ilusão?
O pior de tudo era saber que não teria resposta: só ouvir o silêncio e o vazio de seus pensamentos.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Confianças

Creio que se pode diferenciar dois tipos de confiança nas relações humanas. As duas podem estar presentes em diferentes graus, mas em muitos momentos são distinguíveis. Uma é típicas das crianças: a crença naquilo que te proporciona uma sensação de abrigo e proteção, que ultrapassa ou escapa de um racionalização, pelo menos em algumas de suas bases ou no mais importante. É a confiança que se detém nas nossas próprias lacunas de sentimentos, pensamentos e no encantamento pelo outro. Perigosamente recheada de excesso de expectativas e impressões superficiais.
Outro tipo de confiança é aquela que se estabelece (ou pode se estabelecer) com o processo de experiência de vida enquanto caminho de maturidade, como um compartilhamento entre duas pessoas. Podem ser objetivos, afetos, ideiais e pontos de vista. É uma confiança que se estabelece em um grau razoável de racionalizações e comunhão de sentimentos. Nem que seja um momento ocasional e passageiro. Geralmente, a confiança é baseada em uma certa previsibilidade, mas ela deve se deter a isso? Bom, volta e meia, ela escapa a essas estruturas: quebram-se as malditas expectativas. Isso pode ajudar a criar decepções, nervosismo, frustração, paranóia, desconfiança. E esse é o fruto de relações que sobrevivem no imediatismo, na falta de olhar de novo para a situação, de enxergar além da imagem e das primeras sensações.
E então, você resolve tentar uma confiança baseada na liberdade, na continua negociação, no ouvir constante, em não ter medo das transformações e rever continuamente os próprios conceitos sobre o mundo. Em saber que o ser humano está sempre em construção e do processo de crescimento restam incoerência, fraquezas, falhas. Em ter que lidar constantemente com coisas que teu olho não pode captar. No fato de que as pessoas podem tomar atitudes com as quais tu não concordas, e mesmo assim continuar compartilhando coisas muito bonitas contigo. Na percepção de que um afeto profundo aceita o outro como o mistério e a incompletude que ele é e que ele está; e se o outro quiser mudar pensando em nós, é algo que deve ser digerido pela consciência e pelo aprendizado dele e não pela nossa constante cobrança, expectativa ou intolerância. De qualquer modo há uma constante necessidade de saltos no escuro.
Sem nenhuma dessas confianças sendo praticada, as coisas não florescem. A vida é murcha e pesada. Quando essa confiança se desfaz, dói. E se a confiança madura não existe, melhor seria voltar a ser criança, apegar-se a algum deus bondoso e onipotente, ou então viver anestesiando a consciência até que o tempo se encarregue de tornar isso um automatismo. Para florescer, para fazer valer, é preciso ver beleza verdadeira nas coisas, e saber compartilhá-la, tanto quanto possível, com proximidade, brilho e calor.

sábado, 26 de maio de 2012

Estados antipoéticos

Hoje estou pedregulho
Dura e incômoda superfície
Restos espalhados de orgulho
Últimas energias
Gastas em ironias
São resistências
Pedaços partidos
De sapiência

Lembrança do medo
Que consome a leveza
Infla pequenas
E torpes penúrias
Esconde os sorrisos
E torna perigo
O que era pra ser
Um grande prazer

Um passado etéreo
Insiste em se manter
E nisso não há mistério
Permanece esse cheiro eterno
De tristeza
E julgamento
Por todo o ar
Vibra o caos
E mortificada
Por bizarro espetáculo
Sou mineral
Sem lágrima e sal
E, abaixo de muitas camadas
Suspiro exasperada
Sedenta daquela poesia
Da pura fruição dos sentidos
Ah, menina!
De peito aberto
Tudo que olhas
É tão mais terno
E toda implicância
Um vão inferno
Mas qualquer tortura dói mais
Inesperado adeus à paz
E o silêncio jaz
No indizível

Um triste vácuo
De sentidos
Inércia do simbólico
E dos meus sorrisos

sábado, 12 de maio de 2012

Impermanências


Do outro lado do espelho
Dá pra ver
Que toda ilusão solitária
Tem muito de desespero

Não queiras ir às alturas
Como se a vida
Só precisasse de asas
E a euforia bastasse
Como boa companhia

E se não há verdade
Compartilha tuas loucuras
Faz da tua miragem
Um lugar feliz
Dança, tropeça e chora
Frua toda beleza e toda dor
Antes que o deserto reapareça
E a vida escape entre os teus dedos

sábado, 7 de abril de 2012

Fome

É da falta que renasce o desejo
Fome de delícias
Insaciadas por entre os dedos

E a alma impertinente
Busca a iguaria
Desliza a língua
Tão ternamente
Em doce uva
Morde de leve
Os mais ternos sabores
Prepara então uma bebida quente
E em cuidadosos movimentos
Acalma a sede
Tranquiliza a mente
Breves momentos
Derramam êxtase
És um banquete

Resta-me a espera
Aumenta a falta
Segue o apetite

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Breves inquietações sobre o que governa o mundo

“Os decretos do ministro da Economia se referem aos tipos de câmbio, ao regime impositivo, à política de preços? Porque não mencionam nunca coisas como a vida e a morte e o destino? É mais sábio o que decifra as linhas da mão ou o que saber ler o que dizem, sem dizer, esses decretos?” (Eduardo Galeano)

Eu olhava a janela de todas as casas enquanto caminhava. Procurava as que estivessem abertas e parecessem amistosas. Surpreendi-me com o olhar da senhora baixinha de cabelos grisalhos e compridos.

- Boa tarde! Tá vendendo alguma coisa, moça? – sorriu, enquanto abria um velho portão de madeira da casa.

- Boa tarde! Não, eu tô trabalhando com questionários sobre programas sociais.

Apresentei-me e expliquei detalhes. Em alguns minutos consegui apagar o medo dela de ser mais uma aposentada a sofrer algum golpe financeiro. Tenho que ponderar que o olhar de entusiasmo da senhora cedeu um pouco, mas a gentileza ficou intocada. Ela aceitou receber-me e começou a falar sobre de que maneira o que ela e a filha que morava com ela ganhavam só dava pra pagar a comida, o dízimo e, com muito custo, os remédios que não conseguia no posto. Em retribuição à atenção que recebia, olhei para a senhora como se não tivesse ouvido a mesma história centenas de vezes, ao mesmo tempo em que começava a subir degraus íngremes de paralelepípedos toscamente lapidados.

- Eu achei que você tivesse vendendo CD’s, fia! – disse rindo a senhora, enquanto se esforçava para subir até a própria casa.

Ri, sem entender, dizendo baixo:

- Nãoooo...

- Sabe, fia, que tem uns CD’s maravilhosos falando de Jesus? Eu só não fui no culto hoje porque ninguém veio me buscá. Deus tem me abençoado muito ultimamente.

E como naquele dia eu estava sedenta pela gentileza e pela humildade que encontrava naquela senhora, saiu um tímido “Amém” a essa e a todas as outras esperanças que ela me confessava ter.

- Tem que lê a Bíblia tooodos dia! Se as pessoa lesse a Bíblia, o mundo não tava assim.

Eu balancei a cabeça positivamente, e lancei para ela um sorriso adocicado pela culpa de não estar sendo sincera com quem me tratava tão bem. Não ergui meus olhos. Lembrei que estava em algum lugar da minha estante o livro grosso de papel frágil, com uma proteção cinza de couro. Ele já não me dizia as mesmas coisas, mas um pedaço das minhas angústias de adolescente estava guardado no fecho lateral dele sobre a forma de papéis amarelados cobertos de letras pontudas.

No final dos degraus avistei, na varanda do casebre, no alto da colina, a filha da senhora, que, antes de me ver, estava concentrada em terminar uma peça de tricô. A angústia não saia do olhar daquela mulher madura nem quando ela sorria. Eu olhei para aquele ambiente simples. Tinha um pedaço de nostalgia como quando eu estava em férias num certo sítio aos oito ou nove anos: às vezes ia espiar e assustar de leve os bichos do galinheiro da vó para achar graça no dia.

Depois de sentar e me apresentar à filha da senhora, comecei a entrevista. As minhas perguntas sobre as condições de vida daquelas duas mulheres suscitava respostas familiares. Eu não me lembro de um trabalhador de fábrica que conheci resistir a mais de quinze anos de rotina sem arrebentar as costas, as pernas ou a capacidade do cérebro produzir uma quantidade satisfatória de serotonina. Ou torrar os neurônios e o humor para pagar o aluguel. Vive-se para esmagar as vértebras e dissolver as angústias em soníferos quando tudo dá errado.

Depois das perguntas sobre as condições de vida delas, as últimas questões diziam respeito aos programas sociais. As duas começaram a falar sobre o quanto a vida havia melhorado nos últimos tempos. Era só preencher alguns quadrinhos, marcar uma dúzia de “xis” e eu havia terminado meu dever.

- Sabe, fia, que eu tô orando muito para que o Lula fique curado do câncer! Ele é um homê muito bom! Lá na igreja a gente ora, aqui em casa a gente ora...

- Ele fez bem pra tanta gente! – disse a filha.

- É ele fez bem pra muita gente. Tirô muita gente da fome. E tu vê, o Collor, que só fez mal, continua lá! Como pode?

- O Collor desgraçô a vida de muita gente.

- Ele fez muito mal pra minha fia. Aquele homê vai pro inferno.

Eu pensei que alguns ateus orariam fervorosamente para que Deus existisse e o desejo daquela senhora se realizasse.

- Por causa dele, a fábrica onde eu trabalhava quebrô. Os dono sumiram tudo no dia seguinte. Não tinha emprego em lugar nenhum e eu comecei a passá fome. Eu tive que dá as minhas duas filha pra minha irmã pra elas poderem comê, depois ela não queria me devolve as menina, nós brigamo e eu não falo com ela até hoje. Aquele homê desgraçô a vida de muita gente!

Depois de ouvir a filha, a senhora dirigiu o olhar para mim e perguntou:

- Por que esse homê que fez mal pra tanta gente continua lá, fia? Por que ele tá no governo? Como o Lula aceitava uma coisa dessa, fia?

Por que as coisas foram feitas de maneira que uma pessoa pode ter poder sobre o destino de milhões? Pensei nas teorias sociais e políticas que havia estudado; que para manter o poder era preciso fazer concessões. Pensei na análise dos comentaristas políticos que havia lido. Também nas minhas utopias. Nas minhas crenças sobre a natureza humana, tão complexa, incoerente e ambígua.

Mas quem era eu pra tentar arranhar o alívio que as orações, os calmantes e Deus proporcionavam em certas horas da vida daquela senhora? E se tentasse só dizer algumas palavras simples sobre o assunto, quais eu poderia usar? Ainda havia em mim uma leve lembrança de que o mundo era mais seguro quando colocava-se a cabeça no travesseiro e dormia-se com a crença de que havia seres humanos completamente bons.

Só saiu um “Pois é...” como resposta.

Como estava no final do meu expediente, eu mudei de assunto explicando pela última vez que direitos as duas poderiam ter, de acordo com salário que ganhavam. Recomendei que procurassem ajuda caso passassem necessidades muito sérias. As duas ficaram agradecidas.

A senhora grisalha acompanhou meu trajeto de descida até o portão de madeira. A filha retornou a atenção para o tricô.

- Sabe, Deus sempre tem nos ajudado!

- Que bom!

- Vai pra casa, menina?

- Sim, está na minha hora... e depois vou pra faculdade...

- Que bom! Estudá faz bem!

- É, eu gosto bastante!

Ela abriu o portão e disse:

- Brigada, fia! Deus lhe abençoe!

Eu respondi “Amém” com uma última e fraca gota de fé. Tentei acreditar em um Deus quieto e excêntrico que olhasse para o mundo e dissesse: “Um dia vocês vão aprender a ser livres”. Talvez nesse dia Ele vibre dizendo que nós conseguimos, quando as pessoas descobrirem que há outras maneiras de governar esse mundo. Então decretos, taxas de juros, mísseis de precisão, lei da oferta e da procura, políticas de preço, Ferraris vermelhas, regimes de previdência, fast-food, salários, Bancos Centrais e produção em larga escala tornem-se só lembranças de como o mundo era esquizofrênico, mesmo que tudo parecesse tão racional.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Desarmonia

A beleza escapou entre seus dedos
Como se fosse uma borboleta claustrofóbica
Semeadora de tempestades
Caos silencioso
Tudo vazio e torto

A simetria do outro é sempre melhor
E não há um ombro para descansar
A alma se apaga
No fim, a poesia é só uma alucinação

Tropeça na pirueta
Sozinha na sala
Seus passos sem sincronia

Faz versos sobre a ausência
Abstraindo ruídos e lágrimas
E suspira, esperando pelo universo em harmonia

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Flaneurs

Sou cativada pelos passeios noturnos
Povoados de sorrisos furtivos e ventos refrescantes

Nenhuma placa ou sinal nos limita
E nossos pés doloridos nos fazem livres
Pelo menos por esta noite

Tenho saudade dos passeios noturnos
Até de quando procurei desesperadamente
As palavras certas esquecidas no meio-fio das calçadas

Fica tudo mais simples quando o Sol não ilumina os corpos
Tudo vira harmonia quando a iluminação artificial
Capta o brilho dos olhares
Até as sombras tornarem tudo um mistério

Eu poderia viver para as noites sem teto
Até os mosquitos seriam sinfonia aos ouvidos
E mesmo umas poucas horas de sono
Já arrancariam um sorriso pela manhã

Digo-lhes, pois, que é antes do nascer do Sol
Que se esconde a arte de ficar contente
Com os contornos mais verdadeiros da vida

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Constelações

Nativa do entardecer
Aculturada pelas manhãs
Das burocracias neuronais
E introspecções astrais

Notívaga em espera
Por sorrisos na Lua cheia
E um suspiro à espreita
No escuro do quarto

É tudo feito de estrelas
Longínquo e brilhante
E o silêncio
Não me adormece

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Insaciável

Vontade de mudar, de novo. De sair desse sossego cansativo que empoeira a alma. Mostrar ao mundo que mudei pra que, de uma vez, pare de ser rotina convencer a mim mesma que não foi tudo miragem.
Vontade de olhar no espelho e ver outra imagem. De olhar no espelho e não ter medo que a velha imagem volte. Que os velhos medos sintam saudade, batam na porta e queiram voltar mais uma vez.
Vontade de que o rosto diga tudo que a alma quer gargalhar e até chorar. Que o corpo não volte a ser uma mera formalidade incômoda. E a mente não seja refúgio.
Vontade de hipnotizar sorrindo, mesmo que tudo desmorone como um castelo de cartas (afinal a sedução é um jogo no qual o segredo é descobrir quais são as regras).
Vontade de inflamar mentes, mesmo que seja projeção. De voar livre, mesmo que o céu seja eterna promessa. Vontade de abrir o peito até para tomar tapas da vida.
Vontade de fitar outros olhos com tranquilidade, da fala sair despreocupada e sonora, dos pés voltarem a inventar o próprio chão.

sábado, 5 de novembro de 2011

Cigana Budista

Acordaram aquelas vontades
De cigana budista
De respirar o deleite
Sem o peso da posse

Numa idiossincrasia selvagem
Vagueio em desertos escaldantes
Assombrada por rostos encantados

Desassossegos santos
E o meu suspiro é encontro
Com os sorissos desinteressados
E as inquietudes das mentes consumidas
Por procuras insanas
Caravanas de vida
Pra dividir as lágrimas
E acompanhar as danças

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Ouço aquela voz que diz baixinho para eu ser fiel aos meus quereres. “Viva a tua verdade!”. Mas há também os gritos de praticidades necessárias – carregadas do mesmo lirismo comedido que tirou a paciência de Bandeira - a um som estridente, contínuo e pouco melodioso, às vezes ininteligível.
Se eu pudesse viver só de belezas – daquelas que dão a mesma sensação de respirar o vento gelado depois de um dia cansativo -, ainda que fossem momentos roubados, o mundo jamais me pesaria e todos os movimentos seriam muito mais fáceis. Em homenagem a quem já partiu, quero fruir o mundo só mais um pouco, sem ligar para o que é 'possível'. Fazer de conta que ainda posso, que ainda me permito. Fazer de conta que meu peito vai ficar estufado depois de só restar mais um não ecoando no silêncio. E se a vida me der um tapa na cara, ainda valerá a pena sorrir.

sábado, 20 de agosto de 2011

Substantivos Abstratos


O Universo conspira para que eu ria
Mesmo em meio à melancolia
Dilui passionalidades inconstantes
Na beleza de surpreendentes instantes

Destino, dá-me a chance
De pensar que tenho alma
E encontrar de relance
A honestidade e a calma
Deixa-me honrar as palavras
Substantivos abstratos
Com feitos concretos
Transbordando brilhos
E predicados

domingo, 24 de julho de 2011

Um tom mais brilhante


Pérola descobriu tarde que fora feita para a noite. Não gostava de se entorpecer com a bebida, muito menos de fumar. Mas as companhias boêmias faziam-lhe todo o sentido. As tardes claras e mornas pareciam irreais depois de conversas noturnas intensas. Desenvolvera uma espécie de receio à luz do Sol. Ao mesmo tempo que a fumaça do cigarro dos amigos irritava-lhe a garganta, trazia as lembranças mais interessantes que havia tido até então. O cheiro do tabaco era uma espécie de provocação: no início, um exercício de paciência, depois de sublimação do olfato. Seu espírito poético acabou interpretando o odor que permanecia em seus cabelos após as noites como um sinal de que o êxtase era real, e não um sonho, porque imperfeito. E ela fugia das perfeições desde que descobrira-se protegida da vida por aqueles que mais amava: os avós que a criaram. Vivia sendo constantemente preservada, realizando seus estudos e orações com assiduidade, passeando à tarde nas praças e assistindo a filmes de romance. A fizeram acreditar que havia um momento certo pra tudo. Os avós, percebendo que era introvertida, certa vez falaram com um rapaz tímido, amigo da família, para namorá-la. Antes mesmo do menino se apresentar ela ouviu, meio sem querer, a conversa dos avós atrás da porta e se desagradou. Alguma coisa naquilo a frustrou, mas não sabia o que. Ela falou alto com os avós, pedindo para não fazerem aquilo. Os avós ficaram tristes. No dia seguinte Pérola fez macarrão no almoço e não se falou mais no assunto. Os sorrisos voltaram ao seu fluxo normal por um tempo.
Mas não a pensem (em virtude da mudança) uma rebelde sem causa. A ânsia em esperar pelos sonhos batendo em sua porta ia desvanecendo sua alma em um processo contínuo. Com 26 anos seus amigos da faculdade de Psicologia haviam mudado e os avós a sentiam distante. A avó começou a notar que não realizava mais as suas orações e havia chegado a chorar na frente dela umas três ou quatro vezes por causa disso. Não que ela não cresse, só não sabia mais, e resolveu se aceitar com isso. Recebeu também alguns olhares de reprovação quando começou a voltar para casa depois da meia noite. Certo dia deu um beijo nos avós e disse que, como não queria incomodar, estava de mudança para uma quitinete, porém, viria visitá-los nos fins-de-semana.
Agora Pérola sentia-se nativa das ruas escuras nas voltas para casa. Chamavam-na de careta – e era, de forma convicta. Sentia tristeza ao ver os viciados sob fissura, demonstrando uma alegria tão banhada de desespero. Mas aquele caos e a mistura de cheiros tão contraditórios faziam-na feliz. As almas conhecidas ou desconhecidas que se expunham de surpresa eram seu deleite. Não se sentia mais poupada da vida ajudando bêbados a vomitarem seus excessos da alma e do corpo. Frequentemente ficava sob o êxtase de ter alguns de seus mistérios desvendados, durante longas conversas com amigos, fossem eles passageiros ou velhos conhecidos. Aceitava as lágrimas e as angústias como um presente da vida, para por tudo em movimento. A noite acendeu nela o tom brilhante que já carregava em seu nome.

Um tom mais leve

Ela nunca foi perdoada. Nenhuma palavra fora dita sobre o assunto, mas a cena estava ali, clara. As outras a olhavam querendo parecer desdenhosas, mas na verdade estavam sob constante assombro quando a figura dela vinha em suas retinas. Duas eram até mais novas do que ela, porém as rugas - que todas já tinham – só impunham respeito à feição das quatro mulheres sentadas na varanda de uma casa do interior.
Ela vinha por uma estrada de chão que subia até a casinha afastada de tudo. As poucas árvores do caminho mal atrapalhavam quem queria observar o andar dela. Os cabelos da mulher caiam propositadamente de um coque feito com um grampo de madeira especialmente trabalhada. Alguns fios brancos, que a tintura castanha não cobria, davam um indício que ela já passava dos 45 anos. Usava um jeans daqueles comprados em qualquer loja de departamento: presente de Natal distraído que ela aceitara com muito gosto. Uma camiseta lilás colava-lhe no corpo. E só. Isso bastava-lhe. Seu andar parecia indiferente ao fato daquilo ser uma estrada de chão, cheia de pedregulhos.
Ela chegou em casa. Nunca fez questão de ser toda sorrisos. Olhou para as quatro mulheres da mesma maneira que sempre havia olhado.
- Comprei a farinha e a alface que vocês pediram, mas os tomates estavam quase todos com manchas. E não haviam prendedores de madeira. Comprei os de plástico.
- Procurou direito?
- Sim.
Há tempos ela não esperava mais respostas nos olhares das outras. Entrou em casa, guardou as compras, pegou os fones de ouvido. Escutou seu rock durante toda a tarde daquele sábado, a não ser na hora de ajudar a preparar o almoço e o jantar ao lado das outras quatro. Só arriscava imitar o baterista quando estava sozinha no quarto. Não se arrependeu de não ter aprendido a tocar esse instrumento. Essa molecagem com as mãos parecia um jeito de conservar a infância.
Faltando sete minutos para as oito da noite, ela recebeu uma ligação. As outras intuíram do que se tratava, mas só tiveram certeza quando a viram em seu vestido preto. Usava uma maquiagem leve, brincos que imitavam brilhante, as unhas pintadas de pérola.
Ela nunca foi perdoada por aquele brilho que mantinha constantemente na pupila e por todo o seu esforço para mantê-lo. Era lei daquele mundinho que mulheres tinham que desvanecer. Um indício de moral. Ninguém deveria dar um tom mais leve na palidez delas. Nos sábados aquilo ficava tão evidente, que as outras só conseguiam dar tchau.

sábado, 16 de julho de 2011

Dialética da Vida

Não me deixe ser inocente, meu bem
As santas nunca sorriem no altar
Conheça minha mente a se reorganizar
Pois desacostumei a ser mera refém
De medos e circunstâncias
Agora, valorizo minhas andanças
Erros e acertos como um novo conhecimento
Em meio à loucura desse movimento
Do sangue que corre nas veias
Às lágrimas alheias
E minhas angústias

A minha síntese 
Está fora do teu escopo
Além do teu moralismo louco
Vou formando novas teses
Na pirueta infinita
Dialética da vida
Eu tropeço em alguns passos

Agora eu não espero mais
Bebo às agruras da liberdade
Em uma taça quebrada
Esquecendo das "verdades"
Absolutizadas e engarrafadas 
Só me deixe guardar a minha
A mais pura e ébria poesia
Em meio a uma lucidez tímida
De momentos clandestinos

(17-06 e 16-07-2011)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Ao léu...

Entenda que aquela voz que me fazia querer tudo e ter medo de tudo aquietou. Agora me deixe desbravar o caminho de liberdade que encontrei de repente. Deixe que eu me fira e me cure. Fira-me e cure-me se eu permitir. Deixe-me viver meus êxtases e exautões aos pedaços. Quem sabe construo um mosaico colorido ao fim disso tudo.
 

terça-feira, 17 de maio de 2011

Solidão Blasè

Permita-me não fazer sentido
Aqui quieta no meu canto
E em face a um maior espanto
Não sofra por mim

Eu te olho de soslaio
Querendo tolamente
Que a vida fosse um ensaio
Para saber como agir
Sem que o próximo passo
Impulsione-me a fugir

Deixe-me ser por inteira
Aceite as minhas loucuras
Esqueça minhas amarguras
Não ligue se eu bailar
Sozinha na sala de jantar
É só um rompante

Permita-me ainda
Só por um instante
Quando não me veres mais
Que as palavras que o vento traz
Quando encontra a tua janela
Façam sentido por alguns segundos
Para que então descubras
Que sou eu desejando-te sonhos fecundos

quarta-feira, 30 de março de 2011

O comunista debaixo da cama de Jair Bolsonaro

“- Se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?

- Ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja! Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados, e não viveram em um ambiente como lamentavelmente é o teu!”

*caso não saiba o contexto desse 'diálogo' entre Jair Bolsonaro e Preta Gil, clique aqui.


Não, o Excelentíssimo deputado Jair Bolsonaro não fez uma declaração racista. O problema desse aguerrido defensor da moral e dos bons costumes é ter um comunista debaixo da cama na qual dorme. Não é nenhuma insinuação contra a (santa) mulher do deputado. O problema é que a metáfora de Luís Fernando Veríssimo encaixa-se perfeitamente na situação, no que diz respeito ao comportamento desse perfeito exemplo da política brasileira. Além da reputação ilibada, esse herói possui uma perspicácia extraordinária contra intenções maliciosas e sedutoras!

“Tem sempre um comunista debaixo da cama”, diz o reacionário cidadão de bem do conto de Luís Fernando Veríssimo. E não é que o pavoroso vilão também povoa o pesadelo de Bolsonaro? Além de gostar muito de charutos e vestir verde, com o tempo, essa verdadeira entidade se sofisticou: personificou-se em uma cantora que apresenta programas sobre sexo em canal fechado, com o estrito fim de acabar com os valores da tradição, da ordem e da família. E se objetivo da malévola é, conforme sua perspicácia, insinuar uma sedução ao filho – casado - do Excelentíssimo, como ficar quieto? Ela precisa de uma lição! Vai ficar caladinha!

Precisamos, por fim, dar o devido valor ao homem que se proporia a ser executor de penas de morte até de graça, caso tal possibilidade fosse legalizada no Brasil; homem que tem como inspiração personalidades como Geisel, Médici e outras tantas figuras humanitárias.

E lembre sempre de olhar embaixo da cama antes de dormir e prestar atenção nas intenções maliciosas que povoam a mente de artistas libertinas. Nunca se sabe, nunca se sabe...





quinta-feira, 17 de março de 2011

Pas de Bourrée

Sabe o dia no qual tudo que você quer é dançar acompanhada? Nenhuma pirueta compensa. Nenhuma gargalhada provoca êxtase, nem a mais desesperada.

A mente ouve aquela melodia suave propositalmente temperada com testosterona. O peito tem que conter pequenas e doloridas explosões. Os passos da sua coreografia não fazem sentido. Cambaleia e cai. A Ausência é a única a aplaudir a tua performance.